segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Metonímia

- A André Prosperi -


Faz frio, muito frio. E sol! Nem tanto sol. Os braços e os calos dos outros vão passando. Caminham pausadamente. Em alguma mente por aí está a mente de alguém. Um na mente do outro, um nas pernas do outro e no peito.
E passam os cabelos das pessoas diante de mim. Não são delas, são dele. Vêm os óculos de uma moça. São dele. Vêm os dedos de um rapaz. São dele.
É dele o coração de qualquer um que passe. O seu coração é todos mais o seu. O seu coração é inclusive o meu.
Em mim vão os trechos dele. Pedacinhos de gente que nele, só nele, são uma gente - e, ainda, todas as outras. Todos os tamanhos e cores de olhares, todos os dentes e pelos e peles. Aquilo que passar por mim terá um quê daquele todo.
Seja um cão alegre, meio malandro. Seja um gato gatuno. Seja uma mosca muito ágil, uma aranha cheia de olhos, uma pedra pensativa, uma folha em branco, um livro, uma música, um poema, o nome de meu irmão.
Sejam as roupas de um colega, o sabor do chá e do café, um par de chinelos. Cerveja. Vinho. Chocolate. Desordem pura, pura felicidade. Seja o meu joelho, a minha unha, as orelhas de uma amiga, um nariz de alguém. Tudo será ele, e tem sido. Decidido e imperativo.
A não ser a boca, que, como aquela, não há em parte alguma.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A Blusinha Azul

Quando se conheceram, ainda não existia a blusinha azul. Ela fora adquirida mais tarde, peça de pijama, feita para dormir e sonhar com todos os anjinhos, demônios terríveis. Tão bonita a blusa. Tão azul a blusa. Delicadinha como eram as nuvenzinhas no céu.
Pois bem. Era tão graciosa aquela peça de roupa de dormir, que a moça passou a vesti-la também por baixo das vestes de escola. Era fresca e confortável, feita para velar sono em noite de verão pesado. Bem gostosa ela era. Depois, então, eles se conheceram: a moça e o moço.
Quando tomava banho, a blusinha azul secava ao sol e cheirava bem. E assim modelava o corpo da moça, e dele saía cheirando ainda melhor, - diziam - pois tinha o perfume do suor, das loções, cremes e cosméticos mil.
O moço baixava as alças da pecinha, erguia as rendas de sua base e, por vezes inúmeras, abraçava a roupa vazia para depois abraçar um corpo nu. A moça gemia. A blusa deixava-se ao chão, sorrindo sempre, observando a dona alegre.
Houve um dia em que a blusinha azul não foi nem vestida, nem lavada. Foi dobrada e enfiada às pressas numa bolsa. Nada entendia naquele escuro todo, sem calor de pele ou de sol. Mas, ah!, a bolsa foi aberta, a blusa tomada nas mãos da moça e entregue ao moço. Claro, teve saudades da dona, mas era beijada e abraçada às noites. Por um homem!
A garota ia visitá-la às vezes, mas então o rapaz não mais desejava a blusa, e sim o corpo. A pecinha se entristecia. Houve uma noite em que o moço bateu na blusinha azul e a jogou no chão e a chutou. A moça veio buscá-la depois de alguns dias. Acariciou-a muito e a beijou também. Olhava a cor azul encardida, mas era tão linda, tão gracinha, cheia de rendinhas brancas (agora cinzentas). A dona chorou muito sobre sua roupa. Chorou tanto, tanto, tanto... E não cessava o choro. Tomou um banho com seu pijaminha no corpo - depois de algum rum - e secou-o ao sol do dia seguinte.
Por fim, a moça olhou a blusinha azul, beijou-a mais uma vez, dobrou-a e guardou-a na gaveta para nunca mais. Nunca, nunca mais. Por mais que grite essa peça tão usada.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Céu das Bocas

Toquei o céu-da-boca com a língua para sentir os formatos imperfeitos. Lancei para cima um olhar comprido, tal braço, ou pescoço girafoide, que pôde tocar o céu do prédio, palpando as limitações todas. TETO. Foi o que eu disse. Percebi, com dois pequenos toques, a pequena limitação de mim mesma, quente e vermelha. Disse, então: AMAR.
Lembrei-me do céu do céu dos céus.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Contemplação

Agora, em algum lugar lá fora, está um cavalo escondendo-se da tempestade. O dorso, cor de bronze, fica completamente branco, tingido pela luz do céu. Esse animal não sabe bem quem é, não conhece os olhos que tem.
São puramente olhos de cavalo muito vivo, um que corre, trota e empina. Não faz ideia da força que tem. Esse animal é tão forte quanto os lobos que o perseguem, ou quanto os homens que o dominam. É tão forte quanto as moscas que o atormentam.
Acontece que agora nada importa, porque chove, e a chuva é um pedacinho de morte. Eis um segredo: no interior de cada olhar há o brilho das chuvas do mundo. Chover é cair na terra a luz dos olhares.
Lá está ele, nosso cavalo, até pode-se ver. A crina negra escorrendo molhada, as patas sensuais tremendo de medo e excitação. Lá está a curva da nuca dele. O movimento, a direção, o sentido. Não haverá, então, um único dia de sol capaz de apagar essa noite de intensa tormenta.
Mas ele não sabe, não. Ideia não faz de que amanhã poderá quebrar a perna em um barranco e terminar levando um tiro entre os olhos. Continua a desimportância. É preciso lembrar: já há um pouco de morte em cada olhar. E essa chuva toda já está molhando o meu cavalo.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Novembro findando

Os dois amigos apoiam-se à parede fumando em sincronia. Puxa, traga, olha, pensa e solta.
— Entende o que quero dizer? - diz o mais alto.
— Entendo. Digo, não entendo, mas entendo.
— É assim mesmo...
Vem mais uma névoa cinza. O mais baixo transfere o peso do corpo para a outra perna, dirigindo-se completamente ao amigo.
— Às vezes eu vejo as árvores... Não é? Veja essas árvores. Imagine só conhecer o passado delas.
— É como se Deus estivesse ali. É conhecer demais... - responde o alto.
— Sim. É como se fôssemos árvores.
— Quando? Agora?
— Não sei. Sempre fomos. Não somos nuvem, por exemplo. Nuvem não tem passado, nuvem não precisa ter.
— Por que não? - indaga o alto, mais para si.
— Porque as nuvens são o dentro da gente. Entende?
— Sim, mas... É.
— Eu sei. É assim mesmo.
Vem mais névoa cinzenta. E as nuvens acima das árvores.

domingo, 4 de julho de 2010

A Paixão de quem não diz

Era Junho e estavam sentados ao sofá. Não havia televisão, ou livros, ou chá, nem mesmo café. Havia a grande, enorme janela aberta. Um dia infinito brilhava seus olhos. Havia o Sol, um céu pouco salpicado de nuvens cinzentas e rosadas, como se tivessem aquela vergonha que só o Amor oferece.
Uma brisa ventou furiosa e ergueu a saia da moça mulher. Seus joelhos ficaram à mostra, mas as mãos não se moveram, tampouco os olhos. Seus lábios separaram-se úmidos lembrando uma canção afônica. O rapaz homem a acompanhou nessa canção que também sabia, e os dois cantavam, sorriam olhares esverdeados melados com a luz da tarde que nascia.
Agora tudo era vermelho, ninguém respirava mais alto e melhor que o casal. Então um grito saltou do peito dos dois e somente as flores foram ouvir, frementes como a grama e todas as folhas do dia sem fim. O homem buscou o dedo indicador da moça. A mulher usou todos os outros dedos, a palma e o punho para segurar o rapaz. Puxou-o para perto de si, deitou-o em seu colo. Ele apertou a barriga da eterna namorada, levantou-se e beijou seus olhos.
Era noite. Foi o dia e a tarde. Era Junho. Seria infinitamente beijo.

sábado, 24 de abril de 2010

Isso é um beco

Os cigarros estão molhados, estão dentro da poça d'água. Uns estão deitados sobre o musgo, outros sobre o concreto.
Os cigarros não se olham. Estão sós, usados, gastos. Foram queimados na boca de alguém, esmagados em algum canto e atirados ali, no chão.
Os cigarros da poça são sempre evitados. Sua indiferença esta afogada. Aqueles do concreto são sempre pisoteados e cuspidos.
O interior venenoso dos cigarros ainda exala um odor cinzento, um perfume de alívio, um aroma de tristeza e abandono.
Pelas bocas que passaram deixaram parte de si, marcaram o corpo com veneno e acalentaram a alma que os fumou.
São fumados, mas consomem. De tanto consumir um dia acabam. E são muitos, em toda parte. São um resultado.
Em algum momento virá uma chuva - não a esperam ou desejam - que os levará a um bueiro qualquer.