Agora, em algum lugar lá fora, está um cavalo escondendo-se da tempestade. O dorso, cor de bronze, fica completamente branco, tingido pela luz do céu. Esse animal não sabe bem quem é, não conhece os olhos que tem.
São puramente olhos de cavalo muito vivo, um que corre, trota e empina. Não faz ideia da força que tem. Esse animal é tão forte quanto os lobos que o perseguem, ou quanto os homens que o dominam. É tão forte quanto as moscas que o atormentam.
Acontece que agora nada importa, porque chove, e a chuva é um pedacinho de morte. Eis um segredo: no interior de cada olhar há o brilho das chuvas do mundo. Chover é cair na terra a luz dos olhares.
Lá está ele, nosso cavalo, até pode-se ver. A crina negra escorrendo molhada, as patas sensuais tremendo de medo e excitação. Lá está a curva da nuca dele. O movimento, a direção, o sentido. Não haverá, então, um único dia de sol capaz de apagar essa noite de intensa tormenta.
Mas ele não sabe, não. Ideia não faz de que amanhã poderá quebrar a perna em um barranco e terminar levando um tiro entre os olhos. Continua a desimportância. É preciso lembrar: já há um pouco de morte em cada olhar. E essa chuva toda já está molhando o meu cavalo.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Novembro findando
Os dois amigos apoiam-se à parede fumando em sincronia. Puxa, traga, olha, pensa e solta.
— Entende o que quero dizer? - diz o mais alto.
— Entendo. Digo, não entendo, mas entendo.
— É assim mesmo...
Vem mais uma névoa cinza. O mais baixo transfere o peso do corpo para a outra perna, dirigindo-se completamente ao amigo.
— Às vezes eu vejo as árvores... Não é? Veja essas árvores. Imagine só conhecer o passado delas.
— É como se Deus estivesse ali. É conhecer demais... - responde o alto.
— Sim. É como se fôssemos árvores.
— Quando? Agora?
— Não sei. Sempre fomos. Não somos nuvem, por exemplo. Nuvem não tem passado, nuvem não precisa ter.
— Por que não? - indaga o alto, mais para si.
— Porque as nuvens são o dentro da gente. Entende?
— Sim, mas... É.
— Eu sei. É assim mesmo.
Vem mais névoa cinzenta. E as nuvens acima das árvores.
— Entende o que quero dizer? - diz o mais alto.
— Entendo. Digo, não entendo, mas entendo.
— É assim mesmo...
Vem mais uma névoa cinza. O mais baixo transfere o peso do corpo para a outra perna, dirigindo-se completamente ao amigo.
— Às vezes eu vejo as árvores... Não é? Veja essas árvores. Imagine só conhecer o passado delas.
— É como se Deus estivesse ali. É conhecer demais... - responde o alto.
— Sim. É como se fôssemos árvores.
— Quando? Agora?
— Não sei. Sempre fomos. Não somos nuvem, por exemplo. Nuvem não tem passado, nuvem não precisa ter.
— Por que não? - indaga o alto, mais para si.
— Porque as nuvens são o dentro da gente. Entende?
— Sim, mas... É.
— Eu sei. É assim mesmo.
Vem mais névoa cinzenta. E as nuvens acima das árvores.
domingo, 4 de julho de 2010
A Paixão de quem não diz
Era Junho e estavam sentados ao sofá. Não havia televisão, ou livros, ou chá, nem mesmo café. Havia a grande, enorme janela aberta. Um dia infinito brilhava seus olhos. Havia o Sol, um céu pouco salpicado de nuvens cinzentas e rosadas, como se tivessem aquela vergonha que só o Amor oferece.
Uma brisa ventou furiosa e ergueu a saia da moça mulher. Seus joelhos ficaram à mostra, mas as mãos não se moveram, tampouco os olhos. Seus lábios separaram-se úmidos lembrando uma canção afônica. O rapaz homem a acompanhou nessa canção que também sabia, e os dois cantavam, sorriam olhares esverdeados melados com a luz da tarde que nascia.
Agora tudo era vermelho, ninguém respirava mais alto e melhor que o casal. Então um grito saltou do peito dos dois e somente as flores foram ouvir, frementes como a grama e todas as folhas do dia sem fim. O homem buscou o dedo indicador da moça. A mulher usou todos os outros dedos, a palma e o punho para segurar o rapaz. Puxou-o para perto de si, deitou-o em seu colo. Ele apertou a barriga da eterna namorada, levantou-se e beijou seus olhos.
Era noite. Foi o dia e a tarde. Era Junho. Seria infinitamente beijo.
Uma brisa ventou furiosa e ergueu a saia da moça mulher. Seus joelhos ficaram à mostra, mas as mãos não se moveram, tampouco os olhos. Seus lábios separaram-se úmidos lembrando uma canção afônica. O rapaz homem a acompanhou nessa canção que também sabia, e os dois cantavam, sorriam olhares esverdeados melados com a luz da tarde que nascia.
Agora tudo era vermelho, ninguém respirava mais alto e melhor que o casal. Então um grito saltou do peito dos dois e somente as flores foram ouvir, frementes como a grama e todas as folhas do dia sem fim. O homem buscou o dedo indicador da moça. A mulher usou todos os outros dedos, a palma e o punho para segurar o rapaz. Puxou-o para perto de si, deitou-o em seu colo. Ele apertou a barriga da eterna namorada, levantou-se e beijou seus olhos.
Era noite. Foi o dia e a tarde. Era Junho. Seria infinitamente beijo.
sábado, 24 de abril de 2010
Isso é um beco
Os cigarros estão molhados, estão dentro da poça d'água. Uns estão deitados sobre o musgo, outros sobre o concreto.
Os cigarros não se olham. Estão sós, usados, gastos. Foram queimados na boca de alguém, esmagados em algum canto e atirados ali, no chão.
Os cigarros da poça são sempre evitados. Sua indiferença esta afogada. Aqueles do concreto são sempre pisoteados e cuspidos.
O interior venenoso dos cigarros ainda exala um odor cinzento, um perfume de alívio, um aroma de tristeza e abandono.
Pelas bocas que passaram deixaram parte de si, marcaram o corpo com veneno e acalentaram a alma que os fumou.
São fumados, mas consomem. De tanto consumir um dia acabam. E são muitos, em toda parte. São um resultado.
Em algum momento virá uma chuva - não a esperam ou desejam - que os levará a um bueiro qualquer.
Os cigarros não se olham. Estão sós, usados, gastos. Foram queimados na boca de alguém, esmagados em algum canto e atirados ali, no chão.
Os cigarros da poça são sempre evitados. Sua indiferença esta afogada. Aqueles do concreto são sempre pisoteados e cuspidos.
O interior venenoso dos cigarros ainda exala um odor cinzento, um perfume de alívio, um aroma de tristeza e abandono.
Pelas bocas que passaram deixaram parte de si, marcaram o corpo com veneno e acalentaram a alma que os fumou.
São fumados, mas consomem. De tanto consumir um dia acabam. E são muitos, em toda parte. São um resultado.
Em algum momento virá uma chuva - não a esperam ou desejam - que os levará a um bueiro qualquer.
domingo, 4 de abril de 2010
Conto dos Olhos
Era um coração, assim vazio. A alma é que era cheia de tudo e demais; transbordava. Mas o vazio do coração não resistia às batidas e refugiava-se nos olhos.
Os olhos, então tão cheios de vazio, eram vazios e cheios. Olhavam e não viam; enxergavam. O recheio, tão feito de nada, era denso, era tudo.
O que todos viam era um alguém que existia de mau grado e de agrado. Gostavam das mãos frias que iam aos olhos frios, cheios e vazios, que todos julgavam quentes. Gostavam, talvez, do não-existir desse alguém.
Sendo um "não", era alguém que inspirava certo orgulho, um certo não sei quê. E foi vivendo, sendo um não-não-sei-quê, de mau grado agradando, com dois olhos cheios e vazios. Ou mil, não se sabe.
Os olhos, então tão cheios de vazio, eram vazios e cheios. Olhavam e não viam; enxergavam. O recheio, tão feito de nada, era denso, era tudo.
O que todos viam era um alguém que existia de mau grado e de agrado. Gostavam das mãos frias que iam aos olhos frios, cheios e vazios, que todos julgavam quentes. Gostavam, talvez, do não-existir desse alguém.
Sendo um "não", era alguém que inspirava certo orgulho, um certo não sei quê. E foi vivendo, sendo um não-não-sei-quê, de mau grado agradando, com dois olhos cheios e vazios. Ou mil, não se sabe.
sábado, 2 de janeiro de 2010
Tempo Novo
Agora a vida toda esta marcada. Na pele, nos olhos. Os cheiros mexem com a memória que mexe com todo o resto.
A vida esta marcada de unhas e saliva, esta rasgada e remendada. A vida foi tragada. Ela me alertou, alertou a todos à minha volta: Não cuide que te marco!
E marcou. Marcou com alguns livros, com algumas conversas, com aquelas vozes. Deixou as dores e os prazeres de mãos dadas.
A vida beijou minha boca com a paixão dos que não dizem, rasgou minhas roupas e, com golpes e mais beijos profundos, confundiu-se.
Agora não sei dizer o que é vida e o que sou eu. Juntas estamos e somos, a Senhora Vida e eu. Por meio dessa união conheci um sujeito, um tal de Começo, que me contou um segredo:
A Felicidade existe! E o Fim também.
A vida esta marcada de unhas e saliva, esta rasgada e remendada. A vida foi tragada. Ela me alertou, alertou a todos à minha volta: Não cuide que te marco!
E marcou. Marcou com alguns livros, com algumas conversas, com aquelas vozes. Deixou as dores e os prazeres de mãos dadas.
A vida beijou minha boca com a paixão dos que não dizem, rasgou minhas roupas e, com golpes e mais beijos profundos, confundiu-se.
Agora não sei dizer o que é vida e o que sou eu. Juntas estamos e somos, a Senhora Vida e eu. Por meio dessa união conheci um sujeito, um tal de Começo, que me contou um segredo:
A Felicidade existe! E o Fim também.
sábado, 17 de outubro de 2009
O Homem Cor de Canela e a Terra que Ninguém Pisa
Saltou de um poema infantil um homem. Um bicho, cheio de tudo. Caminhou por ladrilhos de tempo. Pisou nos vários dias que se passaram, fez-se.
Os ladrilhos foram refeitos, redesenhados. Não eram mais dias, eram anos. O homem buscava, procurava, ansiava. Por quem, bicho homem? Por quê?
Certa feita tentou voltar à sua casa, mas não havia mais poema. Leu todos os outros, conheceu seus autores. Nada de lar.
Subiu uma escada metafísica que lhe presenteou com a dúvida. Entrou em uma sala mística que lhe deu aquilo que não sabemos nomear, mas chamamos de fé.
Lá encontrou um espelho. Viu-se então um homem alto, cor de canela. Um dia, sozinho, buscando ainda sua casa, avistou uma criança. Uma menina de costas brancas, usando um vestido vermelho e negro, procurando.
Viram-se homem e menina. Esta aproximou-se pisando em oito, dez ladrilhos de tempo. Viram-se homem e mulher. Deram-se as mãos e juntos descobriram uma gaveta fechada. Juntos abriram-na e encontraram o poema infantil.
A nova mulher reouve sua obra; o homem, seu lar. E assim, tão juntos, tão loucos, saltaram para dentro do papel de carta.
E essa Terra dentro do peito? Nesta, nem ladrilhos nem tempo se colocam.
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