domingo, 4 de julho de 2010

A Paixão de quem não diz

Era Junho e estavam sentados ao sofá. Não havia televisão, ou livros, ou chá, nem mesmo café. Havia a grande, enorme janela aberta. Um dia infinito brilhava seus olhos. Havia o Sol, um céu pouco salpicado de nuvens cinzentas e rosadas, como se tivessem aquela vergonha que só o Amor oferece.
Uma brisa ventou furiosa e ergueu a saia da moça mulher. Seus joelhos ficaram à mostra, mas as mãos não se moveram, tampouco os olhos. Seus lábios separaram-se úmidos lembrando uma canção afônica. O rapaz homem a acompanhou nessa canção que também sabia, e os dois cantavam, sorriam olhares esverdeados melados com a luz da tarde que nascia.
Agora tudo era vermelho, ninguém respirava mais alto e melhor que o casal. Então um grito saltou do peito dos dois e somente as flores foram ouvir, frementes como a grama e todas as folhas do dia sem fim. O homem buscou o dedo indicador da moça. A mulher usou todos os outros dedos, a palma e o punho para segurar o rapaz. Puxou-o para perto de si, deitou-o em seu colo. Ele apertou a barriga da eterna namorada, levantou-se e beijou seus olhos.
Era noite. Foi o dia e a tarde. Era Junho. Seria infinitamente beijo.

sábado, 24 de abril de 2010

Isso é um beco

Os cigarros estão molhados, estão dentro da poça d'água. Uns estão deitados sobre o musgo, outros sobre o concreto.
Os cigarros não se olham. Estão sós, usados, gastos. Foram queimados na boca de alguém, esmagados em algum canto e atirados ali, no chão.
Os cigarros da poça são sempre evitados. Sua indiferença esta afogada. Aqueles do concreto são sempre pisoteados e cuspidos.
O interior venenoso dos cigarros ainda exala um odor cinzento, um perfume de alívio, um aroma de tristeza e abandono.
Pelas bocas que passaram deixaram parte de si, marcaram o corpo com veneno e acalentaram a alma que os fumou.
São fumados, mas consomem. De tanto consumir um dia acabam. E são muitos, em toda parte. São um resultado.
Em algum momento virá uma chuva - não a esperam ou desejam - que os levará a um bueiro qualquer.

domingo, 4 de abril de 2010

Conto dos Olhos

Era um coração, assim vazio. A alma é que era cheia de tudo e demais; transbordava. Mas o vazio do coração não resistia às batidas e refugiava-se nos olhos.
Os olhos, então tão cheios de vazio, eram vazios e cheios. Olhavam e não viam; enxergavam. O recheio, tão feito de nada, era denso, era tudo.
O que todos viam era um alguém que existia de mau grado e de agrado. Gostavam das mãos frias que iam aos olhos frios, cheios e vazios, que todos julgavam quentes. Gostavam, talvez, do não-existir desse alguém.
Sendo um "não", era alguém que inspirava certo orgulho, um certo não sei quê. E foi vivendo, sendo um não-não-sei-quê, de mau grado agradando, com dois olhos cheios e vazios. Ou mil, não se sabe.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Tempo Novo

Agora a vida toda esta marcada. Na pele, nos olhos. Os cheiros mexem com a memória que mexe com todo o resto.
A vida esta marcada de unhas e saliva, esta rasgada e remendada. A vida foi tragada. Ela me alertou, alertou a todos à minha volta: Não cuide que te marco!
E marcou. Marcou com alguns livros, com algumas conversas, com aquelas vozes. Deixou as dores e os prazeres de mãos dadas.
A vida beijou minha boca com a paixão dos que não dizem, rasgou minhas roupas e, com golpes e mais beijos profundos, confundiu-se.
Agora não sei dizer o que é vida e o que sou eu. Juntas estamos e somos, a Senhora Vida e eu. Por meio dessa união conheci um sujeito, um tal de Começo, que me contou um segredo:

A Felicidade existe! E o Fim também.

sábado, 17 de outubro de 2009

O Homem Cor de Canela e a Terra que Ninguém Pisa

Saltou de um poema infantil um homem. Um bicho, cheio de tudo. Caminhou por ladrilhos de tempo. Pisou nos vários dias que se passaram, fez-se.
Os ladrilhos foram refeitos, redesenhados. Não eram mais dias, eram anos. O homem buscava, procurava, ansiava. Por quem, bicho homem? Por quê?
Certa feita tentou voltar à sua casa, mas não havia mais poema. Leu todos os outros, conheceu seus autores. Nada de lar.
Subiu uma escada metafísica que lhe presenteou com a dúvida. Entrou em uma sala mística que lhe deu aquilo que não sabemos nomear, mas chamamos de fé.
Lá encontrou um espelho. Viu-se então um homem alto, cor de canela. Um dia, sozinho, buscando ainda sua casa, avistou uma criança. Uma menina de costas brancas, usando um vestido vermelho e negro, procurando.
Viram-se homem e menina. Esta aproximou-se pisando em oito, dez ladrilhos de tempo. Viram-se homem e mulher. Deram-se as mãos e juntos descobriram uma gaveta fechada. Juntos abriram-na e encontraram o poema infantil.
A nova mulher reouve sua obra; o homem, seu lar. E assim, tão juntos, tão loucos, saltaram para dentro do papel de carta.
E essa Terra dentro do peito? Nesta, nem ladrilhos nem tempo se colocam.

Grande Não Sei

Um cão tapete, um fogo e as gentes. Procurei entender os interesses delas, mas não pareciam importantes. Era um grande "já que estou aqui". Todos suportando o dever, buscando o que fazer, fazendo nada, nem sequer buscando.
Sou uma janela. A fuga de mim é justamente olhar para dentro. Coisa que faz de minha fuga um fracasso. Fracasso fugitivo caçador.
O olhar para dentro é enxergar. Enxerguei então (fora de mim estavam as gentes) a curva da nuca dele. Encaminhava perfeitamente aos ombros, aos braços, aos dedos. Então aos cabelos negros e de volta àquela curva da nuca dele.
A curva de meus caminhos.
O fogo ia se esgotando, o tapete se agitava dormindo, as pessoas ressuscitavam, aflitas, aquela única luz comum. Vai apagar, vai apagar! E os estalos tornavam a acomodar os ânimos.
O silêncio não existe lá fora, mas aqui dentro é um respirar interrompido. E possui olhos que caem sobre o que se pensa. Cílios enormes, curvados. Lá, pessoas acordam, dormem, andam, tudo ao som da Für Elise urbana.
Os livros na mesa, o antigo relógio de pêndulo na parede, ambos condenando-me, palavra e tempo possuindo-me. Fizeram com que eu me lembrasse dos nomes que se lembram de mim. Não sei se lembro ou se sou memória.
Os parentes se incomodavam sentados e acomodavam-se novamente. As gentes, um fogo e um cão tapete. Enxerguei a neblina dos olhos dele.
Neblina de meus pecados.
Chá quente na garganta e eu ia procurando, procurando meus próprios interesses. Ia odiando os olhares sobre mim. Deixem-me com minhas saudades! Com meus afetos proibidos. Deixem-me.
Mas não deixavam, pois eu era só um elemento das gentes. Só uma gentinha coitada somada a um cão tapete e a um fogo. Os olhares continuavam a passar por mim, furtivos.
Todos os dias são noites frias onde há um cão, um fogo e gentes tapetes. Enterro em mim os sonhos do mundo.